• avemarketing entrevista #6: Luli Radfahrer

    O blog avemarketing conversou com Luli Radfaher que, gentilmente nos concedeu entrevista. Luli é  Ph.D. em Comunicação Digital pela ECA-USP , onde também é docente.luli Trabalha com internet desde 1994, quando fundou a Hipermídia, uma das primeiras agências de comunicação digital do país, hoje parte do grupo Ogilvy. Saiu em 96 para fundar seu estúdio, onde atendeu AlmapBBDO, MTV, FIAT, Leo Burnett, VISA, Volkswagen e Camargo Corrêa. Em 99 foi para a StarMedia de Nova York assumir a Vice-Presidência de Conteúdo. De volta, criou a dpz.com, divisão digital da agência de propaganda DPZ. Em 2002 trabalhou em Londres, com projetos de TV Interativa e comunicação wireless. Voltou como consultor, tendo como clientes a AOL Brasil (redesenho e reestruturação do conteúdo) e o McDonald’s (projeto de conteúdo para o McInternet). Colunista da revista Webdesign, é autor dos livros “Design/web/design” e “Design/web/design:2″, considerados referência para a área, e “A Arte da Guerra Para Quem Mexeu No Queijo Do Pai Rico”, uma análise crítica e bem-humorada do ambiente corporativo.

    Com uma articulação impecável, Luli esbanja conhecimento. Confira a entrevista imperdível!

    avemarketing: Uma tradicional conceituação de informação afirma que “é tudo aquilo que destrói uma incerteza”. A internet é uma revolução comunicacional e de proliferação de informações. Hoje uma criança de 7 anos está mais exposta e possui uma quantidade de informações maior do que nós recebemos em 20 anos de vida. Luli, para onde isso tudo vai nos levar?

    Acredito que não “leve” para lugar nenhum. Na verdade, a própria idéia de destruição de incertezas é um pouco equivocada. À medida que a informação se acumula, as incertezas tendem a aumentar. Certeza é, cada vez mais, efeito de ambiente restrito, como certas comunidades ideológicas ou regimes autoritários. Voltando ao ponto da pergunta, acredito que o resultado dessa sobrecarga de informação seja mais decepcionante do que parece. Como provam a vida besta dos milionários e a epidemia de obesidade nos Estados Unidos, o aumento de recursos não costuma resultar em uma melhoria da produção. Hoje que praticamente qualquer instituição ou pessoa pode manifestar suas opiniões e contribuir com conteúdo para a rede, o que se vê não é um aumento da inteligência das pessoas, mas a enorme popularização das bobagens do YouTube, como o vídeo do menino grogue ao sair do dentista, mais vistas do que qualquer palestra do TED.

    Louis Armstrong cantava, em “What a wonderful world”, que as crianças aprenderiam mais do que ele jamais saberia. Em termos técnicos, ele estava correto. Os indivíduos hoje são melhor adaptados aos tamagotchis eletrônicos que nos cercam. Mas isso não significa que sejam mais sábio, muito pelo contrário. Acredito que o mundo daqui a 20 anos será bastante complexo em termos de interfaces, mais evoluído em um ou outro valor (sustentabilidade, alimentação, fumo) mas as pessoas continuarão a desperdiçar petabytes em pornografia, celebridades, fofocas e outras trivialidades. Não é necessariamente ruim, mas está longe de ser o paraíso que alguns imaginam.

    avemarketing: De acordo com a pesquisa ConecteMídia, realizada pelo Ibope, “53% dos entrevistados se sentem pressionados com a quantidade de informações atuais”. Evidentemente há muito lixo na internet, como reprodução dos comportamentos da sociedade. Como gerenciar o trash, na internet?

    Ansiedade de informação (e seu desdobramento, ansiedade de inovação) são típicas de uma época em que o conhecimento era mensurável, quantificável. Livros e jornais, por exemplo, dão a impressão que é possível saber “tudo” a respeito de determinado assunto – e que certos assuntos desagradáveis podem ser simplesmente evitados. Mas na verdade esses meios de comunicação são próteses, e todos sabemos que no contato com pessoas, nunca se saberá absolutamente “tudo” que o outro sabe – a idéia, aliás, não faz o menor sentido. Também aprendemos, em diálogos, a filtrar de uma conversa o que realmente queremos saber e o que vale a pena evidenciar. Os profissionais que todos têm como referência se atualizam, e sempre que se busca um novo esclarecimento o conhecimento é atualizado.

    A melhor forma de lidar com o excesso de informação e o lixo da Internet não está em tentar melhorá-la, mas em desenvolver, em si, uma espécie de filtro para saber o que perguntar, quando a pergunta é relevante e quando já é o bastante. Acima de tudo, é fundamental verificar quem emite a resposta. A Internet é só uma grande compilação de informação produzida por humanos, e portanto sujeita a todos os seus desvios.

    avemarketing: Como você vê a criatividade digital no Brasil, atualmente?

    Cada vez melhor. Há muitos novos empreendedores e criativos pensando em uma forma mais abrangente, sistêmica. Até há pouco tempo atrás, a piada, o verso musical (ou a “sacadinha” publicitária) eram um fim em si mesmo. Hoje eles têm se transformado, a cada dia mais, em produtos, com mercados e oportunidades. Isso gera, naturalmente, uma criatividade mais madura e melhor pensada, o que é uma ótima notícia. Isso não significa que deixamos de ser gozadores ou irônicos, mas o compromisso – que até personas do Twitter e posts em blogs reforçam – com uma constância na produção de idéias constantes e coerentes gera um ambiente muito mais criativo. Isso é verdade para o mundo inteiro e o Brasil, mesmo atrasado em algumas tecnologias, sem o hábito de ler e com uma enorme diferença social, pode se beneficiar por ter um espírito naturalmente social, comunitário e anárquico.

    avemarketing: A convergência midiática é uma tendência, certo? Quais outras tendências você pode citar?

    Na verdade são quatro tendências, pois depende de onde você quer a convergência. As TVs nunca foram tão grandes e com sistemas de som tão envolvente. A sala de home theater é uma caverna digital que, em cada casa, promove a convergência. Os celulares, na rua, fazem o mesmo. Os dois são convergentes, cada um de um jeito. Outras duas convergências são o computador, sem dúvida o melhor lugar para se trabalhar (ninguém pensa em escrever longos textos no celular ou no sofá da sala) e os aparelhos dedicados de trabalho móvel, como medidores de códigos de barras, boletos de garçons e GPSs em carros, ainda mais rápidos e eficientes que qualquer celular. Nessa categoria ainda cabem as câmaras semi-profissionais e profissionais.

    Outras tendências são o tracking e os alerts, com o tempo real a substituir boa parte das buscas; o crescente autismo coletivo; o desprendimento dos ambientes físicos de trabalho – o que inclui mesmo cidades ou países; a integração de diversos produtos e serviços em dashboards; Metaversos e realidade aumentada; jogos de todos os tipos – brandeados, imersivos ou comunitários, como os do Facebook (e o Project Natal, que talvez um dia saia da prateleira); a pirataria e o fim dos conceitos antigos de propriedade intelectual; novos tipos de fetiche, de Otaku à culinária, visível em Julie & Julia; um progressivo achatamento cultural, que leva a uma vida mais amigável e menos interessante; crescimento de colaboração e filantropia; acessibilidade e culto à diferença; novos tipos de hardware desenvolvidos pelo usuário (tendência que se popularizou com kits abertos como o Arduino; dinheiro virtual; aumento do storytelling transmídia; maior importância das interfaces gráficas para transmitir grandes volumes de informação; propaganda orientada a valor… são tantas as tendências que em breve alguem deverá promover um mega saldão delas.

    avemarketing: O que uma marca ou pessoa deve fazer para conseguir destaque na internet, de maneira saudável?

    Só existe uma regra que sempre dá certo: observar. Tentar compreender o ambiente em que se está e o que se tem a oferecer antes de tomar qualquer atitude. Todo o resto é bobagem, já que estamos tratando de relações que, como as humanas, variam caso a caso e não pode haver regras absolutas.

    avemarketing: Para finalizar, fale sobre seus projetos futuros e deixe algumas dicas aos nossos leitores.

    Vou pular esta. Meu blog e twitter são minhas interfaces, os comentários deles são meu melhor feedback.

    *Luli ainda nos brindou com um vídeo com uma de suas palestras, disponibilizado abaixo. Também imperdível!

    Leia também

    :: avemarketing entrevista #5 – Priscilla Aloi
    :: avemarketing entrevista #4 – Dr. Donald K. Hsu
    :: avemarketing entrevista #3 – Ester Beatriz (parte 1) (parte 2)
    :: avemarketing entrevista #2 – Michel Lent
    :: avemarketing entrevista #1 – Arnald0 Rabelo
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    Comentários


    1. Diego M. Cipriano

      Elcio, gostaria de agradecer por ter me convidado a ler esta entrevista em primeira mão. Alias, excelente entrevista que nos permite aproximar de profissionais tão capacitados como o Luli. Sem dúvida nenhuma de que o mundo perfeito seria todo o conteúdo da internet (essa massa gigantesca de informações) com qualidade. Mas, há muito a ser feito, afinal bobagem na internet virou algo cultural.

    2. Elcio! excelente entrevista…A sociedade da informação nos expõe muitas vez ao um excesso de dados, mas o que percebo é que a geração do verdadeiro conhecimento não está sendo muito fundamentado. Parece que os jovens de hoje têm mais acesso às informações, porém pouco conhecimento, menos ainda, sabedoria para usá-lo, e antes as pessoas tinham menos informações, mas pareciam ter mais conhecimento.
      Será que o excesso é um mal? ou a maioria das informações que estamos recebendo têm menos qualidade ou não estão sendo acessadas e filtradas de modo correto? Amei a entrevista!! seria bom ter mais vezes!
      Parabéns!!! Kellen.. http://www.meumundoamigo.blogspot.com

    3. Oi,
      Gostei,
      belas dicas é o Cara!

      Bjos no coração e fica com Deus

    4. Parabéns Elcio, ótima entrevista.
      Não é novidade, mas achei interessante ele ressaltar que a busca por pornografia na internet não deixará de existir (sabendo que hoje em dia mais de 80% das buscas na internet são por esse tema). Talvez ele tenha concluído isso por saber que o individualismo, a carência e os apelos sexuais só tendem a aumentar.
      Gostei também a lista de tendências, abre muitos campos aos interessados no assunto.

      Grande abraço.

    5. Grande entrevista, não é atoa que o cara é PHD, é fera mesmo.

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    7. [...] Forte abraço, do compadre, Fernando. Leia também :: avemarketing entrevista #7: Cláudia Seabra :: avemarketing entrevista #6: Luli Radfahrer :: avemarketing entrevista #5: Priscilla Aloi :: avemarketing entrevista #4: Dr. Donald K. [...]

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    10. [...] O tempo de comunicação unilateral, ou seja, realizada única e exclusivamente por um emissor para o(s) receptores, sem feedback instantâneo, ficou para trás. Neste momento a comunicação é caótica e a retroatividade também diversa. Impressionante como, cada vez mais, os jovens se utilizam de vários meio ao mesmo tempo e, como diz Luli Radfahrer “um jovem hoje assiste tv, passeia por multicanais, ouve música, acessa internet tudo ao mesmo tempo e  quando um amigo(a) pergunta no celular o que ele está fazendo, a resposta é: nada“. [...]

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