• Você é muito mais do que aquilo que você produz. Você é aquilo que é capaz de amar

    Um negócio que não produz nada além de dinheiro é um negócio pobre”. Henry Ford.

    Estou terminando de ler o livro Wikinomics. Um livro que tenho desde 2009 e que ainda não tinha me animado a ler. Não tinha me animado simplesmente porque eu achava que era um livro monótono e maçante. O que não é verdade. Apesar de alguns amigos terem me dito que era um excelente livro, ele tava aqui na minha estante, enquanto outros livros, muitos deles muito menos interessantes até, foram passando em sua frente.

    Mas, não é isso que eu quero dizer. Quero dizer de um caso que li nesse livro sobre a utilidade de filósofos para algumas empresas e, com isso, dizer das lições de filosofia, que é uma matéria na qual a maioria das pessoas não presta atenção nem conseguem enxergar a sua conexão com o empreendedorismo.

    Existe uma corrente na filosofia que diz que, quando conhecemos uma pessoa e nos relacionamos com ela, seja qualquer o tipo de relacionamento (profissional, amizade, namoro, casamento, e até mesmo inimizade), esse relacionamento faz com que um pouco da essência da pessoa fique em você. E, obviamente, que um pouco de você fica na pessoa, como era de se esperar.

    Ou seja, aprendemos também conforme nos relacionamos. Aprendemos sobre a essência das pessoas, sobre pontos-de-vista, sobre opiniões, sobre gostos e ficamos com aquilo pra gente. A partir desse momento, parte da pessoa torna-se nossa propriedade e, o mesmo acontece com essa pessoa com quem nos relacionamos.

    Eu, por exemplo, devo a uma pessoa, em específico, grande parte do meu pensamento e comportamento atual. Isso porque, no tempo em que convivemos, pude aprender através de seus atos coisas que me despertaram um comportamento que, após aprimorado é grande parte do que penso, acredito e defendo hoje em dia. Essa pessoa foi o big bang – o início – de muito daquilo que eu sou hoje. E, da mesma maneira, de alguma forma, tem alguma semente minha nela, da mesma forma que tem uma semente dela dentro de mim.

    Um outro exemplo, foi um amigo que eu convivi e que, infelizmente foi embora no ano passado, que deixou dentro de mim uma outra semente: a semente da amizade, a semente da generosidade, a semente da felicidade. Tenho certeza que hoje sou uma pessoa melhor por esse nosso convívio e, acredito eu que deixei alguma coisa boa com ele também para que ele possa ter levado para aonde está agora.

    Esses dois exemplos apenas confirmam o que a filosofia diz. A filosofia diz que, quando nos relacionamos com uma pessoa, deixamos algo nela e ela deixa algo em nós. Ganhei um ótimo presente de duas pessoas especiais. Ganhei a visão empreendedora, uma visão de aprimoramento, uma visão de fazer diferente, muitas vezes pelo óbvio, e ganhei a visão da amizade, de fazer o bem, de querer bem às pessoas.

    E é justamente sobre esse poder de tocar as pessoas e deixar uma parte de nossa essência nela que faz com que sejamos seres que têm o dom de se aprimorar com o convívio e com o exemplo.

    Empreendedorismo é muito mais do que apenas criar uma empresa que de dinheiro, como sabiamente o grande Henry Ford disse na frase que inicia esse artigo. Criar uma empresa, pensar em dinheiro, ter foco em dinheiro só nos transforma em pessoas ainda mais vazias, ainda mais ocas. Porque o dinheiro é conseqüência, não causa de nada daquilo que criamos.

    Há pouco tempo atrás, eu tive a oportunidade de conviver com uma pessoa pela qual o dinheiro vinha em primeiro plano. Tudo que ele fazia, toda pessoas que ele conhecia, tudo que ele aprendia era no intuito de conseguir ganhar mais dinheiro, fazer mais dinheiro, vender mais, pra ganhar mais. E, por coincidência ou não, tudo pra ela estava dando errado. Da mesma maneira, tenho um amigo que o seu negócio começou como hobby, como uma diversão e distração e hoje, porque ele sempre se divertiu com o seu negócio, está indo de vento em popa, com um alto índice de crescimento e de procura, que faz com que seu negócio seja bem conhecido no seu ramo.

    Porque essa grande diferença?

    Porque o dinheiro é importante, mas não é ele que motiva as realizações. Quando o foco é dinheiro, quando estamos gananciosos a ponto de só ver o dinheiro, não conseguimos enxergar mais nada em volta e, perdemos oportunidades, perdemos chance de construir algo porque, naquele momento, não parecia que ia dar lucro, não parecia que ia dar dinheiro.

    A primeira grande lição de empreendedorismo de todos os tempos, e não foi dada por mim porque existe há muitos séculos, sempre foi se divertir. A diversão é o primeiro sinal de que uma coisa pode dar certo – e não o seu lucro. É a diversão que mostra que uma coisa nos empolga, mexe com a gente, nos da vontade de aprimorar e fazer mais.

    Porque, quando não temos diversão, rapidamente desanimamos. Porque quando não nos divertimos, acabamos pensando em dinheiro e, se ele não vem na velocidade em que queremos, perdemos o tesão.

    O que eu estou querendo dizer não é que temos que pregar o desapego, rasgar o dinheiro e queimar os cartões de crédito. Muito pelo contrário, assim como Donald Trump e Robert Kiyosaki, eu também quero que todo mundo fique rico. Porque quando as pessoas têm dinheiro, a economia muda.

    Mas a melhor maneira de se chegar lá não é focar na grana. É se divertir.

    Por isso que o título desse artigo não tem nada a ver com produção. Mas sim com amor, com troca, com aprendizado. Porque quando você cria e produz algo que só tem retorno financeiro, algo está errado e, pode até estar dando certo agora, mas em algum momento irá por água abaixo.

    Negócios sem prazer, sem sentimento, sem amor, são negócios vazios, como bem disse Henry Ford em seu sábio pensamento. Negócio sem paixão, sem aprendizado com outras pessoas é um negócio que só tem uma certeza: o fracasso.

    Os negócios bem sucedidos são os negócios aonde a filosofia vem em primeiro lugar e, para essa importância eu cito uma belíssima frase de Steve Jobs que diz: “eu trocaria toda a minha tecnologia por passeio com Sócrates”. Porque? Porque entender a filosofia é uma maneira de entender o que acontece com você, o que acontece com as ideias, o que acontece com as perguntas sobre os consumidores que algumas empresas tentam responder e não conseguem.

    Empreendedorismo, fazer negócios, criar empresas e produtos é sobre trocar. Não trocar dinheiro, trocar produtos ou trocar negociações. Não apenas isso. É sobre muito mais. Mas, infelizmente isso ainda não está tão às claras assim para que as pessoas possam ver.

    Empreendedorismo, business, como muitas pessoas gostam de encher a boca pra falar por aí é sobre ser aquilo que somos capazes de amar e, transformar isso em coisas que as pessoas também são capazes de amar. Não todo mundo. Mas aquelas pessoas que pensam assim como você e eu. Quando fazemos algo que é parte do que amamos, chamamos a atenção de pessoas que amam a mesma coisa que nós e, assim, construímos uma rede de evangelistas em torno de nosso negócio.

    Porque?

    Porque empreendedorismo é sobre tesão. É sobre saber que, quando nos relacionamos com as pessoas, até mesmo em uma simples relação comercial, deixamos algo nela e, ela deixa algo em nós. E, muitas vezes, isso muda o nosso caráter, muda a nossa conduta e muda a maneira com que pensamos e acreditamos nas coisas.

    E é isso que é empreendedorismo. Muito mais do que uma atitude. Muito mais do que um comportamento. É uma maneira de pensar que, aí sim se reflete em uma maneira de agir.

    Apenas o homem que ama consegue ser empreendedor de verdade. Isso porque ele tem ciência da importância do relacionamento, do amor, e das sementes que as pessoas com as quais já nos relacionamos até hoje conseguem deixar na gente. Isso porque ele sabe que relacionamento é uma troca. As pessoas deixam algo e levam algo.

    Esse é o empreendedorismo de verdade! O empreendedorismo que transforma empresas em marcas amadas, que transforma produtos em verdadeiros amuletos e, que transforma um negócio pobre, em algo que transborda paixão.

    O resto é apenas o resto. Empresas vazias com pessoas vazias. Não vamos perder nosso tempo com elas.

    Enrico Cardoso
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