• Dê-me liberdade para agir e pensar. Não me coloque coleiras para limitar o meu potencial

    Essa semana vi um videozinho gringo aonde as pessoas pedem para algumas crianças desenharem um relógio e, dão a elas dez segundos para isso. Pelo tempo curto, todas as crianças desenham o óbvio. Um relógio redondo, com os ponteiros e os números. Na segunda parte do vídeo/teste, foi pedido para que as crianças também desenhassem um relógio. Mas o tempo foi muito maior. Dez minutos.

    E é nesse momento que os resultados surpreendem. As crianças usam e abusam da criatividade, das cores, das formas, para desenhar um relógio. Relógios em formatos de rostos, de quadrados, losangos, bichos, e tudo mais que fosse possível. Personagens, pessoas e objetos foram transformados em relógios através da imaginação das crianças.

    A conclusão é óbvia. Quando existe liberdade as pessoas conseguem pensar melhor e fugir do convencional. Com o tempo limitado, o pensamento fica apenas no tempo, que precisa ser cumprido e, essa preocupação bloqueia qualquer pensamento relacionado à criatividade ou a fazer diferente.

    Só que, diariamente, professores, chefes e empresas, mesmo sabendo da óbvia conclusão dessa pequena pesquisa, frustram a criatividade das pessoas. As empresas inovadoras são feitas por pessoas inovadoras. Isso quer dizer que, pessoas fora do comum criam empresas fora do comum. Os diversos livros de inovação que são lançados diariamente mostram centenas de empresas (em sua grande maioria americanas) que têm programas inovadores. Mas o que fazem essas empresas serem vistas como inovadoras são as pessoas que estão por trás dela.

    Por outro lado, empresas não inovadoras, nem sempre estão assim por causa de todas as pessoas. Mas por causa de algumas. Por causa de algumas pessoas que pressionam a liberdade dos funcionários, fazendo eles observarem apenas o que foi pedido, pela pressão, deixando de lado a criatividade que a liberdade pode dar às tarefas.

    Quando compram, ou ganham um animalzinho de estimação, muitas pessoas têm por iniciativa colocá-los em aula de adestramento. Contratam pessoas para treinar os seus animaizinhos a obedecerem de uma certa forma, alguns comandos. Como sentar, rolar, deitar, não latir, não pular em cima das pessoas, ir buscar a sua coberta e, alguns mais “abusados” ensinam outras coisas que, na verdade são verdadeiras mordomias para os donos (abrir geladeiras, portas, etc.).

    Por um lado isso acaba sendo legal. Educar o animal para o convívio conosco, humanos, de uma maneira que nós – nem sempre humanos – acreditamos ser mais sociável e aceita. Mas, por outro lado, estamos fazendo os animais colocarem o seu instinto, que é o que lhes garante e ajuda a sobreviverem de lado, para agirem conforme aquilo que achamos ser o certo. Com isso, estamos fazendo com que eles ajam fora de seu instinto, estamos colocando coleiras, mesmo que psicológicas nos animais e fazendo com que eles façam coisas que não fariam caso estivessem livres.

    Dito isso, voltemos às empresas não inovadoras, cheio de procedimentos burrocráticos que limitam o instinto (criativo) dos profissionais. Manuais de como fazer. Relatórios de porque fazer. Reuniões de o que não fazer. Prazos para coisas não fugirem do padrão. As empresas estão adestrando as pessoas, que por instinto são criativas, a pensarem dentro da burrocracia delas com os processos enjambrados que não funcionam e não dão mais resultado.

    E aí, as empresas colocam a culpa nos funcionários. Sem perceberem que, são elas mesmas as grandes responsáveis pela inércia, pelo comportamento apático de seus funcionários. As empresas não estão vendo que, estão pedindo para os seus funcionários desenharem um relógio em dez segundos.

    As empresas não conseguem enxergar a coleira que estão colocando em seus funcionários. Elas não conseguem ver que os grandes resultados vêm da liberdade que as pessoas têm para criar e desenvolver coisas novas de maneiras melhores.

    Eu acredito que o ser humano é criativo por instinto. O problema é que, até chegar nas empresas, muitas vezes ele passa por lugares que vão adestrando esse instinto criativo a apenas ser mais um na multidão. Quando criança, ao perguntar de tudo para os pais, ao invés de receberem respostas ou provocações, são surpreendidas com um “cala a boca”. Na escola, os alunos que pensam diferente, fazem as perguntas mais abusadas e questionam os métodos de ensino dos professores são penalizados, rotulados de rebeldes, burros e problemáticos. Some-se a isso vinte anos que passamos estudando e iremos ver como as pessoas saem com uma lavagem cerebral das faculdades. Pessoas recém-formadas, sem cérebros, ensinadas serem mais um na multidão, respeitarem as regras, o status quo e os procedimentos sem questionar. Sem mais “porquês”.

    E essas pessoas chegam, muitas vezes em empresas quadradas. Grandes empresas, com grandes procedimentos, com um enorme costume de fazer as coisas do mesmo jeito, sempre usando os mesmos dez segundos para fazer um relógio. Sempre com o foco no tempo, nunca com o foco em fazer diferente.

    Quando uma empresa assim, se choca com um profissional que não foi ofuscado pela família e pela escola, das duas uma: ou a empresa muda, ou o funcionário vai cair fora.

    Quando o choque é positivo, a empresa muda. O funcionário consegue mostrar que a liberdade é o bem mais precioso para fazer funcionar o instinto criativo que temos – mesmo que ele esteja adormecido. E aí sim, as empresas têm uma chance de caminharem rumo à inovação. É o caso de pessoas inovadoras, com o instinto funcionando, fazendo empresas inovadoras.

    E, diante de milhares de livros sobre inovação, eu não conheço nenhuma receita que não venha de pessoas. As pesquisas, as tecnologias, os processos, seja lá o que for, tudo parte de ideias de pessoas que colocaram o instinto criativo pra funcionar e, fizeram empresas fazerem a diferença.

    Mas, o choque pode ser negativo. Muitas empresas não gostam de funcionários disruptivos. Acham que, viveram a vida inteira fazendo as coisas de um jeito e, essas coisas funcionam e, por isso não precisam de um jeito novo de fazer isso. E aí, a empresa perde e o funcionário ganha. A empresa perde um funcionário inovador, que não foi moldado pela mediocridade familiar nem escolar e, o funcionário ganha. Ganha ao sair fora de uma empresa que mais uma vez tentou matar o seu instinto. E ganha a oportunidade de ir pra outra empresa e, fazer a diferença.

    As pessoas funcionam melhor com liberdade. É ela – a liberdade – o melhor incentivo que as pessoas podem ter quando o assunto é a liberdade. Liberdade pra pensar, pra expor ideias e criar coisas. Porque é a liberdade o ingrediente essencial pra tudo em matéria de inovação.

    Por isso que a primeira pergunta que as pessoas precisam fazer sobre o que fazer pra ter uma empresa mais inovadora é: “estamos dando a liberdade necessária para as pessoas?”. É esse o indicador fundamental para uma cultura inovadora dentro das empresas.

    Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma conseqüência”. Léon Tolstoi.

    Acorda!! Tá na hora de mudar o mundo…

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    Enrico Cardoso

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