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Fala-se o que quer, escuta-se o que quer!
7 de fevereiro de 2012 | Por João Ribeiro em comportamento, MarketingA partir de agora contribuirei com textos para o site avemarketing. É um privilégio. Vou escrever sempre sobre comunicação, imagem, responsabilidade social corporativa e outros temas, sempre ligados a “como gostaríamos de sermos vistos” (admirados!) e “como somos efetivamente vistos” (criticados!). Vou começar com o texto abaixo, cujo assunto foi muito bem explorado pelo jornalista Marcelo Zorzanelli: “humor e compaixão”. Meu texto fala sobre ética. Os próximos posts serão mais voltados ao marketing. E você, leitor, divirta-se, compartilhe, divida, multiplique, critique, abuse, pense, mas especialmente, colabore.
Quando passar o trator é mais simples do que pensar antes de falar…
A gente perde o amigo, mas não perde a piada… Até quando essa máxima terá sentido? Até quando vamos dizer o que queremos, sem nos importarmos com o conteúdo do que falamos ou, ainda pior, sobre quem falamos?
Li o artigo “Os jovens humoristas e a falta de compaixão” do jornalista Marcelo Zorzanelli, (clique aqui para ler, vale muito a pena), que fala da relação entre o pseudoengraçadinho e a condolência. Belíssima explanação, trata-se do melhor texto que já vi sobre essa nova onda de achar que humor é ligar o rolo compressor e deixá-lo ladeira abaixo, passando por cima de quem quer que seja.
Há mais de 20 anos convivo com humoristas e fui privilegiado por ter sido educado por pessoas que respeitam…, adivinhem…: pessoas! Entendi que fazer graça não é falar tudo que vem à cabeça, especialmente quando isso atinge…, adivinhem…: pessoas! Não deveria ser por e para pessoas que vivemos?
Até quando vamos travestir de liberdade de expressão atitudes rasas de gente (?) que, com o discurso frágil de não se curvarem à censura, falam o que querem, dizem o que lhes vêm à cabeça, quaisquer que sejam as consequências? Gente que se indigna e não aceita nenhuma reação às suas sandices.
Exemplos são os mais distintos possíveis. É o dublê de humorista que fala o que quer no horário nobre da TV; é o “burguesinho” que veste Levi´s, mas arrota Trotsky e escreve as maiores asneiras nas mídias sociais; é o jovenzinho que divulga fotos e vídeos que constrangem pessoas, mas acha que foi só “brincadeira”… Tô com uma gastura dessa gente…
Não se trata de censura menos ainda volta à ditadura, trata-se de respeito, “compaixão”, como bem lembrou Zorzanelli. Trata-se de educação. Trata-se de entender que devemos ser minimamente responsáveis pelo que falamos e por como agimos. São beócios aqueles que falam e agem como querem, mas biltres são os que falam, agem E NÃO SE RETRATAM. Vestem-se de arrogância, típica dos grosseirões, para manter suas palavras e atitudes, fingindo transformá-las em arte, liberdade de expressão ou, pior ainda, humor. Humor faz bem e todo mundo pode rir dele. Quem é objeto de piada de mau gosto, não pode rir mesmo. E isso não é humor. Humor – no mínimo – alegra a todos, se humilha, pode ser tudo, MENOS humor.
Todo humorista, aliás todo mundo, pode dar uma mancada, falar demais e ser autor de grosserias, gafes e infelicidades, e se retratar é a forma exclusiva de minimizar o efeito dos excessos.
Outro dia foi o “humorista” bem educado que abriu a boca pra falar de mãe e filho, este ainda nem nascido; ou então a aluna de direito que para defender seu candidato à presidência sugeriu afogar nordestinos ou ainda o morador das áreas chiques do Rio de Janeiro que sugere explodir parte do país porque dá dor de cabeça ao país falar de Belo Monte. Mas tudo é brincadeira. Tudo é humor. Tudo é liberdade de expressão. E assim acabam ateando fogo no índio Galdino; espancando a empregada doméstica Sirlei, confundida com prostituta; matando o sujeito gay em meio à praça paulista; xingando de bicha o atleta de vôley ou de macaco o jogador de futebol. Afinal, tudo pode. Tudo é brincadeira.
Devemos combater esse rolo compressor tanto quanto devemos combater o politicamente correto. Deixar de chamar de brincadeira o que é de mau gosto, o que é inconsequência, o que é ato lesivo. Os americanos sacaram muito bem os mimadinhos, que não conheceram a palavra “não” e seu sentido de limite, e os chamam de “estragados” (spoiled). São, de fato, estragados da sociedade. Pior, como fruta podre, contaminam as saudáveis.
Alguns que defendem essa verborragia usam como exemplo Mussum e Didi, que também em horário nobre xingavam um ao outro de “crioulo”, “cearense” e por aí vai, ladeira abaixo. A despeito de isso não ser motivo de orgulho para ninguém (afinal, qual a vantagem de ser “negro” ou “branco”, “carioca” ou “cearense”??? Tudo termina em gente, mesmo!), o que Didi e Mussum faziam era muito mais privado do que público. Havia ali um pacto entre 2 pessoas. Um aceitava a provocação do outro, um incitava o outro com a alcunha que melhor “ofendesse” seu interlocutor. E entre 2 agentes que celebram essas intimidades, vale tudo dentro do limite de seus contratos. O que não vale, é achar que pode entrar minha casa e dizer besteiras sobre mãe e filho e falar que isso é humor ou escrever o que quer nas mídias sociais e dizer que foi só uma brincadeirinha. Aí ultrapassou os limites do contrato entre 2 atores e me incluiu na brincadeira…, de mau gosto.
Estamos cansados de assistir ao ator que imita o gay afetado, à atriz que faz a mãe judia; mas respeitosamente contextualizadas, essas bobajadas não passam, no mínimo, de humor barato. Afinal, existem os gays histéricos, há mães que empanturram seus filhos. Mas humor barato é opção de quem consome: quanto mais educada for a sociedade, menor espaço para esse humor obtuso. Por outro lado, uma coisa é o humor bronco, outra, o humor que agride o próximo só para fingir que faz graça. Infelizmente, tão abjeto quanto o agressor é quem ri da desgraça do outros.
Desaprendemos a conjugar o verbo “brincar”, agora é eu brinco, tu aceitas, ele ri, nós nos divertimos, vós ignorais e eles se melindram.
Discutir, brigar, defender pontos de vista, estimular as sinapses, tudo isso só enriquece o diálogo, vale a pena e deve ser defendido com unhas e dentes. Mas falar o que quer, escrever o que quer, somente porque se acha o supersincero ou aquele brincalhão, precisa ser combatido com a mesma intensidade.
Falar o que quer, escrever o que quer, não é questão de censura, é questão de educação. Essa ética utilitarista, defendida por aqueles que querem chegar ao fim sem se importar com o meio, não é a mesma ética que calça o desenvolvimento sadio.
E o Brasil que eu sonho para os nossos filhos e netos é um país com educação, cultura, respeito e muito humor. Um país que respeita seus diferentes. Um país que estimula a discussão saudável. Um país que administra sua diversidade e se beneficia disso. Um país que rejeita o falso humorista que atira para os 360º. Queremos rir de bons humoristas.
Se você concorda com isso, apague da sua rede social o engraçadinho que escreve o que quer. Desligue o canal de TV cujos programas galgam audiência através da exposição alheia.
Seja consciente. Seja inteligente: sua risada custa muito caro para você dar para qualquer um.
UP: Infelizmente, em 17/01/2012 o réu Rafael Bastos foi condenado a pagar APENAS 10 salários mínimos para cada um dos 3 afetados da família da cantora Wanessa Camargo, perfazendo um total de pouco menos de 20 mil reais (30 salários mínimos), em senteça proferida por Luiz Beethoven Giffoni Ferreira, juiz da 18ª Vara Cível de São Paulo, segundo reportagem de O Globo. Lamentável a parcimônia da Justiça Brasileira. Como essa quantia o réu aufere fazendo um comercialzinho na TV, não vai ser suficientemente dolorida no seu bolso a penalidade a que respondia. Talvez se o juiz tivesse se colocado no lugar dos pais da criança – sequer nascida à época do proferimento da asneira do réu, cujo arrependimento jamais demonstrou privada ou publicamente – ou se o juiz, mais ainda, tivesse pesquisado o rol de abusos cometidos pelo réu, teria o condenado a REALMENTE pagar pela humilhação DESENECESSÁRIA a que submeteu os autores. É, quando a Justiça é cega é cega mesmo.
João Ribeiro
Colaborador do blog :-)


















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